Acolhimento
Rodrigo Pastor Alves Pereira

Instrumento/ferramenta de trabalho, de tecnologia leve, de uso por equipes de saúde na sua relação com o usuário do serviço de saúde


A conceituação do acolhimento passa, necessariamente, por uma reflexão sobre o processo de trabalho em saúde. Os serviços de saúde, ao contrário de outros serviços do mundo industrializado, têm como marca a necessidade de reconhecer o usuário como sujeito e participante ativo na produção da saúde. Nessa relação, o médico muda o seu objeto de trabalho (da doença para o doente) e faz surgir a necessidade de novas tecnologias em saúde, dentre elas o acolhimento.

    Segundo Deborah Malta (1996), o acolhimento é uma estratégia de mudança do processo de trabalho em saúde, buscando alterar as relações entre trabalhadores e usuários e dos trabalhadores entre si, humanizar a atenção, estabelecer vinculo/ responsabilização das equipes com os usuários, aumentar a capacidade de escuta às demandas apresentadas, resgatar o conhecimento técnico da equipe de saúde, ampliando a sua intervenção. Ainda segundo Fracolli, L.A. (2001) o acolhimento é um instrumento de trabalho que incorpora as relações humanas. É um instrumento, pois deve ser apropriado por todos os trabalhadores de saúde em todos os setores do atendimento. Assim, não se limita ao ato de receber, mas a uma seqüência de atos e modos que compõem o processo de trabalho em saúde. Dessa forma, "acolher" não significa a resolução completa dos problemas referidos pelo usuário, mas a atenção dispensada na relação, envolvendo a escuta, a valorização de suas queixas, a identificação de necessidades, sejam estas do âmbito individual ou coletivo, e a sua transformação em objeto das ações de saúde. As definições acima incorporam à nossa análise os pressupostos da transdisciplinaridade e da valorização do trabalho em equipe, tão caros à mudança paradigmática que o PSF do Brasil deseja pôr em curso e faz do acolhimento uma tecnologia brasileira em sua essência.

    As equipes de saúde freqüentemente deparam-se com questões como: quem acolhe? qual é o horário do acolhimento ? em qual lugar? Tais perguntas mostram, muitas vezes, a dificuldade de apreensão, por parte dos trabalhadores, do que vem a ser o acolhimento. O mesmo não pressupõe hora, local ou profissional específico para fazê-lo, devendo a "postura acolhedora" fazer parte das habilidades dos membros das equipes em sua relação com a população, em todos os momentos. Apesar disso , no dia-a-dia das unidades de saúde, as equipes devem se preparar para utilizar a sua infra-estrutura de forma criativa, garantindo os pressupostos do acolhimento, adequado às realidades locais.

    Em um viés psicanalítico, as equipes devem estar atentas às limitações do acolhimento. Reconhecer e acolher o desejo do outro não implica satisfação. Segundo Freud, o mal-estar origina-se da imposição de limites ao desejo, fato gerador de sofrimento, porém regulador e ordenador da vida na sociedade ocidental. A preparação dos profissionais para a função do acolhimento deve reconhecer as teses acima e ampliar o entendimento das relações equipe e usuários e dos membros da própria equipe.

    É desejável que o sentido de acolher ultrapasse as fronteiras da relação equipe/usuários e comece a permear as relações dentro da própria equipe, criando ambientes acolhedores em reuniões e no dia-a-dia do trabalho, estimulando seus membros a relatarem dificuldades que podem ser trabalhadas dentro da equipe ou não. Enfim, que a proposta de acolhimento não seja descendente: instituição-equipe-usuário, e sim que esteja presente nas várias relações oriundas do trabalho em saúde.

    A somatória dos relatos e propostas acima trazem em si um novo desafio: perceber o acolhimento como imperativo ético na humanização do processo de trabalho em saúde. Quem viver verá.

O Dr. Rodrigo Pastor Alves Pereira é especialista em Medicina de Família e Comunidade pela SBMFC, especialista em Saúde da Família pela UFMG/MEC/BHVida, e médico do programa BHVida da Prefeitura de Belo Horizonte.


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